quinta-feira, 25 de agosto de 2011

«Era uma vez...»

«Era uma vez» uma menina.
O seu mundo era a mais perfeita história e ela a personagem principal. Mas nem precisava de se esforçar por representar esse papel. Bastava não implicar e não guerrear e ser a melhor mãe das suas bonecas cujos nomes mudavam cada semana...
O Sol nunca decepcionava, nascendo todos os dias esplendoroso, com a promessa de um dia de brincadeiras de quando fosse grande. As estrelas brilhavam e estavam sempre lá, infinitas, sem impaciência para os dedos de crianças que nunca se cansavam de as ver e de as tentar contar. A lua nunca faltava, numa sexta-feira, para ouvir as músicas mais tolas do mundo, mas cantadas pelas mais belas vozes do mundo, as das crianças. E as nuvens, quando era tempo, descarregando aquela água que embalava a pequena num sono feliz e que permitiam que ela sonhasse no meio delas.
Ela queria crescer no seu mundo de ilusão, no seu mundo em que tudo tinha apenas a forma que os seus olhos projectavam, os sons que as suas pequenas orelhas filtravam e o sabor da felicidade pura, inocente e irresistível.
«Era uma vez» uma rapariga.
O sol lançava um convite irresistível às brincadeiras, e nem as estrelas brilhavam de contentamento mais que os seus olhos. A lua sorria com ternura e despedia-se com uma canção de embalar e nem as nuvens tinham o poder de apagar o sorriso da sua face.
Crescera e queria ser mais, ter mais, fazer mais e melhor. Aprendera que nem sempre era bom ser a personagem central e por isso retirava-se para um lugar mais discreto para que a deixassem só com a sua felicidade e vaidade. Era o tempo de ser cabeça de vento. Era o tempo de achar que era importante e que lhe estava reservado um futuro brilhante e que chegaria mais alto que qualquer pessoa...
Era o tempo em que falava com os pequenos bichinhos, era o tempo em que plantar um árvore era tão ou mais importante que qualquer das brincadeiras. Ou pelo menos, era o que ela pensava durante os primeiros dias. Era o tempo em que a prioridades se invertiam da noite para o dia...
«Era uma vez» uma amostra de mulher.
O sol por vezes escondia-se por trás das nuvens quando devia aquecer o coração preocupado de uma pequena jovem preocupada com tudo o que lhe aconteceu, como se fosse algo de outro mundo. As estrelas esqueciam as cumplicidades de criança e, agora, ela ficava entretida a contar os aviões a passar à noite, tão longe que podiam passar por estrelas a moverem-se muito rapidamente. A lua já não cantava para ela pois ela não conseguia compreender mais aquela magia que tantas vezes a fizera erguer o rosto esperançado para a lua. E nem as nuvens traziam aquele prenuncio de cheiro das primeiras terras molhadas que despertava as saudades do Inverno.
Era essa menina-mulher que se sentava à janela do seu quarto, por que não se atrevia a sair, a observar os raios a rasgarem o infinito apenas para tocarem na terra e escreverem as suas histórias. E ela ficava extasiada com tamanha beleza selvagem. Mas não se atrevia a juntar-se ao céu, a festejar a libertação daquelas forças.
Era essa menina-mulher que se sentava de pernas cruzadas, todas as noites, e falava, sem mexer os lábios. Falava e falava, de tudo e de nada. Do que vira e do que ouvira; Do que queria ter visto e do que queria ter ouvido. Sentava-se e chorava por tudo aquilo que se perdera ao mesmo tempo que ria por tudo aquilo com que era abençoada. Era essa menina-mulher que confiava sem resistência, nem questões naquilo que tingia a terra com a cor da pureza e que fazia aquelas maravilhosas ilusões para as crianças serem felizes.
E era nessa força que a menina-mulher encontrava a esperança aquando do crepúsculo pintado no infinito, e era nessa força que a menina-mulher se concentrava quando corria pelas ruas da cidade, olhando para o céu e para o sol brilhante que cegava, tão belo se mostrava. Era essa força que permitia que ela continuasse cada minuto, segurando um sorriso por menos sentido que fosse, só para ver o rosto de outros rasgar-se num sorriso de retribuição. Pois o mundo já não era uma ilusão, já não era uma história de fadas em que o final feliz estava ali, pronto para afastar as nuvens do sol.
Foi nessa altura que a menina-mulher percebeu que tinha estado cega para o mundo e que agora, que lhe tinham colocado grandes lentes ela via um beleza muito mais complexa, mais pura e selvagem; Uma beleza que feria o olhar. Mas que também a paisagem perfeita que se estendia à sua frente tinha falhas, pontos negros que feria e que traziam as já familiares lágrimas. Foi nessa altura que ela começou a ouvir e começou a ouvir por cima do som do rouxinol para ouvir a ferocidade que existia mesmo junto dela. Foi nessa altura que ela percebeu que a vida imperfeita não se destinava apenas a ela.


«Era uma vez» um ser humano.
«Era uma vez» um mundo.
«Era uma vez» uma realidade.


E o final?
Esse, continua por deslindar por entre a espuma das ondas ferozes que perfuram o céu.