quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Uma História de Barcos

Era de dia e eu remava, e remava, e remava, e remava. Não tinha exatamente mais nada para fazer. Estava no meio do nada, com o meu pequeno barco de madeira frágil. Então remava e remava, e remava. Sempre para a frente, mesmo quando virara. Sempre para a frente mesmo quando era noite e eu não via nada. Sempre para a frente mesmo quando as ondas eram cinzentas e se tornavam mais altas que eu alguma vez seria.
Estava sozinho no meio do nada, então remava, e remava, e remava, e remava. O que me rodeava era azul. Do céu e do mar. Ou então cinzento, do céu e do mar. Não havia qualquer outra cor para além do azul. E o infinito estendia-se à minha frente, entendia-se para trás de mim. Entendia-se para todos os lados. E então eu remava, e remava, e remava. Porque não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Continuava todos os dias. Sob o sol escaldante ou sob a chuva dura e pesada. E eu remava pois não havia mais nada que eu pudesse fazer.
No início lutei e tentei voltar ao que era antes. Tentei ficar de pé sobre o pequeno barco vacilante e ver onde era terra. No início deixava-me estar à deriva, e esperava, e esperava, e esperava, e esperava. Esperava que as coisas não fossem assim tão diferentes de como eram antes. Ou esperava que me viessem resgatar.
Mas depois passou o tempo e eu cansei-me de esperar e passei a remar. E remava, e remava, e remava. Sentia prazer pelo propósito. Sentia prazer pela dor nos braços e nos ombros. Sentia prazer de cada vez que rodava o pescoço e ele estalava. E ele ainda estala, todos os dias. Sentia felicidade por avançar, por desvendar este mar bravio que era só meu. E remava por ele, afastando todos os monstros. E remava por ele, saindo de todas as tempestades. E remava por ele, cortando as ondas com os meus remos. E remava, e remava, e remava.
E depois não sei como será. Talvez continue a remar. Talvez reme até morrer. Talvez finalmente encontre uma terra para viver. O futuro será sempre um talvez, mas eu sei que agora remo, e remo, e remo, e remo, e remo. Todos os dias eu remo. E remarei todos os dias, até ao fim.

domingo, 1 de dezembro de 2013

«Estava uma noite amena com uma aragem que sabia mesmo bem, depois de um dia de sufocante calor.
A minha mão moveu-se automaticamente em círculos tranquilizadores sobre aquela minha barriga espantosamente inchada. Parecia ter a constante necessidade de me certificar que ela não era imaginária. Ou pelo menos, era mais real que tudo o que fizera para da minha vida até então.
Apressei-me a limpar a lágrima que escapou do meu domínio e respirei profundamente de modo a ocultar um soluço que me ficara preso na garganta.
Virei costas às janelas e às pessoas que lá estavam dentro à minha espera. Não queria pensar nos seus sorrisos de compaixão que demonstravam sempre que entrava na mesma divisão que eles. Nem no seu silêncio repentino e ensurdecedor quando reparavam em mim. Não queria ter de repetir mais vezes a mim mesma o quanto agradecida lhes estava por me terem acolhido. Nem precisava. Fazia parte do seu dever enquanto familiares e tinham deixado isso bem claro durante as primeiras horas que ali passei.
Deixei sair uma sombra de soluço. Era um fardo, nada mais do que um dever. Como sempre fora. Nunca fora mais do que uma mulher que uns infelizes tiveram de carregar. Meu pai, meu tio, até meu marido que jurara amar-me e, agora, até esta família que não tinham mais do que orgulho. E usavam-no para me magoar.
Sentei-me cuidadosamente no banco de pedra e esfreguei mais uma vez a mão contra aquela barriga que transportava a única pessoa que importava neste mundo. O meu menino. A única coisa que fez aparecer sorrisos nos rostos dos que a tinham acompanhado toda a vida.
Não devia restar muito tempo. Os movimentos do pequeno tornavam-se cada vez mais insuportáveis. A alegria preencheu-me como sempre que pensava nesta pequenina prenda que me daria a mim mesma e ao mundo. No entanto, a dor que acompanhou esta onda de alegria era uma novidade.
Levantei-me na esperança de apagar o mau pressentimento que me apanhou e entrei no castelo de meus sogros. Joan, o meu marido, tinha falecido há apenas três meses. As tapeçarias negras, as roupas sem cor, e os rostos fechados mostravam isso mesmo. Joan, que fora o primogénito mais querido. Joan, que fora um homem tão carinhoso, compreensível e paciente comigo quando me recusava a entrar na cama dele. Apesar de todas as suas virtudes nunca mais me esqueceria de Joan, o homem que há quase nove meses se fartara de esperar e arrancara de mim a minha pureza, que me fizera perceber a sua faceta de predador.
Não fora culpa minha, a sua morte, apesar de muitos afirmarem à boca fechada que sim. Sim, rogara-lhe pragas e mandara-o à merda e desejara que ele morresse quando tinha partido numa caçada poucos dias depois. Mas quando soube que tinha engravidado toda a fúria desapareceu e não podia esperar até contar ao seu marido. E ele ficaria tão feliz… E eu teria finalmente algo que pudesse fazer…
Joan nunca chegou a saber que o seu primogénito vinha a caminho. Durante seis meses ele vagueou nas brumas da febre e eu vagueei com ele. Queria estar sempre com ele para que quando acordasse o pudesse fazer feliz e para lhe dar forças para lutar.
Nunca tive essa oportunidade. Joan não acordou mais.
A pontada de culpa e dor fez-me estremecer.
Encostei-me à parede sentindo as pernas em geleia. A respiração começou a sair-me em soluços. (...)»

sábado, 26 de janeiro de 2013


«- O mundo está a mudar.
Os senhores riram-se de mim e as raparigas olharam-me desdenhosas. Era normal. Já o esperava. Há muito que a terra não girava.
- O que sabe uma feiticeira sobre a terra?
Finalmente reconheciam o meu título de feiticeira. Mas o que sabiam eles sobre as feiticeiras? Há muito tempo que estava louca. Surda para os apelos dos homens, cega para os gritos das mulheres. Há muito tempo que me entregara ao prazer de pertencer à terra. Há muito tempo que tinha deixado de ser feiticeira.
- O mundo está a mudar.
Eles começaram a ficar aborrecidos mas eu continuei a repetir.
- O mundo está a mudar. E a terra está a girar.
Eles já não me ouviam. Os seus olhos avaliavam as raparigas e mediam-nas tentando escolher quais iriam partilhar o seu leito. E a raparigas acariciavam-nos, deixando-os embriagados de desejo. Tão embriagados que não se apercebiam que o ouro desaparecia. Tolos. Não! Nojentos! Tinha nojo de viver no meio deles!
- O mundo não voltará. Aproveitem enquanto podem. A vossa era chegou ao fim!
Por fim voltaram-se para mim. Indignados. Como tinha eu o descaramento para o enfrentar? Para os insultar?
Sorri enquanto eles se perdiam nos prazeres carnais. Em breve. Em breve as feiticeiras viriam e varreriam o lixo como se fossem folhas numa tempestade. Em breve.»

(Excerto de uma história que ainda agora começou.)

Sentei-me e esperei
Esperei que te juntasses a mim
Esperei que me abraçasses
Que me afastasses as lágrimas
Que me fizesses sorrir.
Sentei-me e esperei
Abraçada às minhas pernas
Que tudo não passasse de um pesadelo
Que eu não estivesse neste lugar
Atraiçoando tudo o que amava
Tudo o que acreditava.
Sentei-me e esperei
Que um dia me pudesses perdoar
Que um dia me pudesses olhar
Sem te lembrares do passado.
Sentei-me e esperei
Que tu viesses
E que as trevas partissem.
Sentei-me e desejei
Que todos eles morressem
Que este momento cessasse
Nunca ter acordado.
Mas nada podia mudar.
Então sentei-me,
Sentei-me e esperei
Que alguém viesse
E me matasse.
Esperei eu alguém viesse
E me fizesse esquecer.
Sentei-me e esperei
Que aparecesses para me despedir.
Mas tu não o fizeste.
E eu senti-me perdida sem ti.
Então, morri.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Tentei virar-te a cara,
Dizer-te que não,
Sem olhar para trás.
Abandonar-te e não sentir.
Mas a tua vida era mais importante.
As tuas plavras sempre me traçaram o mapa da mente.
Mesmo que não te importes,
Mesmo que não o sintas…
Não podia deixar-te ir,
Não podia deixar-te morrer.
Mesmo que não o penses.
Poderia matar, magoar e morrer
Desde que me amasses e ficasses comigo.
Como posso saber se é verdade?
Se é a realidade?
Se realmente me queres?
Não podia mais ficar,
Ver-te sofrer,
Fazer-te sofrer.
Não podia mostrar o que sentia.
Não podia, não queria.
Eu tinha razão.
Eu sabia o que fazia!
E por todas as palavras,
Não posso pedir perdão.
Eu tenho razão.
Não o podes negar.
A vitória pertence-me.
Mesmo que seja um abraço da morte…
Mesmo que não torne a ver o teu sorriso…
Ouvir as tuas palavras…
Sentir o teu toque…
Cumprirei a minha promessa,
E ninguém,
Nem o teu amor,
Me vão impedir.
A vitória pertence-me.
E eu partirei.
De sorriso nos lábios…
Por ti. E só por ti.