«Estava uma noite amena com uma
aragem que sabia mesmo bem, depois de um dia de sufocante calor.
A minha mão moveu-se
automaticamente em círculos tranquilizadores sobre aquela minha barriga
espantosamente inchada. Parecia ter a constante necessidade de me certificar
que ela não era imaginária. Ou pelo menos, era mais real que tudo o que fizera
para da minha vida até então.
Apressei-me a limpar a lágrima
que escapou do meu domínio e respirei profundamente de modo a ocultar um soluço
que me ficara preso na garganta.
Virei costas às janelas e às
pessoas que lá estavam dentro à minha espera. Não queria pensar nos seus
sorrisos de compaixão que demonstravam sempre que entrava na mesma divisão que
eles. Nem no seu silêncio repentino e ensurdecedor quando reparavam em mim. Não
queria ter de repetir mais vezes a mim mesma o quanto agradecida lhes estava
por me terem acolhido. Nem precisava. Fazia parte do seu dever enquanto familiares
e tinham deixado isso bem claro durante as primeiras horas que ali passei.
Deixei sair uma sombra de soluço.
Era um fardo, nada mais do que um dever. Como sempre fora. Nunca fora mais do
que uma mulher que uns infelizes tiveram de carregar. Meu pai, meu tio, até meu
marido que jurara amar-me e, agora, até esta família que não tinham mais do que
orgulho. E usavam-no para me magoar.
Sentei-me cuidadosamente no banco
de pedra e esfreguei mais uma vez a mão contra aquela barriga que transportava
a única pessoa que importava neste mundo. O meu menino. A única coisa que fez
aparecer sorrisos nos rostos dos que a tinham acompanhado toda a vida.
Não devia restar muito tempo. Os
movimentos do pequeno tornavam-se cada vez mais insuportáveis. A alegria
preencheu-me como sempre que pensava nesta pequenina prenda que me daria a mim mesma
e ao mundo. No entanto, a dor que acompanhou esta onda de alegria era uma
novidade.
Levantei-me na esperança de apagar
o mau pressentimento que me apanhou e entrei no castelo de meus sogros. Joan, o
meu marido, tinha falecido há apenas três meses. As tapeçarias negras, as
roupas sem cor, e os rostos fechados mostravam isso mesmo. Joan, que fora o
primogénito mais querido. Joan, que fora um homem tão carinhoso, compreensível
e paciente comigo quando me recusava a entrar na cama dele. Apesar de todas as
suas virtudes nunca mais me esqueceria de Joan, o homem que há quase nove meses
se fartara de esperar e arrancara de mim a minha pureza, que me fizera perceber
a sua faceta de predador.
Não fora culpa minha, a sua
morte, apesar de muitos afirmarem à boca fechada que sim. Sim, rogara-lhe
pragas e mandara-o à merda e desejara que ele morresse quando tinha partido
numa caçada poucos dias depois. Mas quando soube que tinha engravidado toda a
fúria desapareceu e não podia esperar até contar ao seu marido. E ele ficaria
tão feliz… E eu teria finalmente algo que pudesse fazer…
Joan nunca chegou a saber que o
seu primogénito vinha a caminho. Durante seis meses ele vagueou nas brumas da
febre e eu vagueei com ele. Queria estar sempre com ele para que quando
acordasse o pudesse fazer feliz e para lhe dar forças para lutar.
Nunca tive essa oportunidade.
Joan não acordou mais.
A pontada de culpa e dor fez-me
estremecer.
Encostei-me à parede sentindo as
pernas em geleia. A respiração começou a sair-me em soluços. (...)»
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