sábado, 26 de janeiro de 2013


«- O mundo está a mudar.
Os senhores riram-se de mim e as raparigas olharam-me desdenhosas. Era normal. Já o esperava. Há muito que a terra não girava.
- O que sabe uma feiticeira sobre a terra?
Finalmente reconheciam o meu título de feiticeira. Mas o que sabiam eles sobre as feiticeiras? Há muito tempo que estava louca. Surda para os apelos dos homens, cega para os gritos das mulheres. Há muito tempo que me entregara ao prazer de pertencer à terra. Há muito tempo que tinha deixado de ser feiticeira.
- O mundo está a mudar.
Eles começaram a ficar aborrecidos mas eu continuei a repetir.
- O mundo está a mudar. E a terra está a girar.
Eles já não me ouviam. Os seus olhos avaliavam as raparigas e mediam-nas tentando escolher quais iriam partilhar o seu leito. E a raparigas acariciavam-nos, deixando-os embriagados de desejo. Tão embriagados que não se apercebiam que o ouro desaparecia. Tolos. Não! Nojentos! Tinha nojo de viver no meio deles!
- O mundo não voltará. Aproveitem enquanto podem. A vossa era chegou ao fim!
Por fim voltaram-se para mim. Indignados. Como tinha eu o descaramento para o enfrentar? Para os insultar?
Sorri enquanto eles se perdiam nos prazeres carnais. Em breve. Em breve as feiticeiras viriam e varreriam o lixo como se fossem folhas numa tempestade. Em breve.»

(Excerto de uma história que ainda agora começou.)

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